Uma visão sobre a morte

“Cada vez estou mais consciente, nos últimos 10 anos mais ou menos, das mortes de meus contemporâneos. A minha geração está de saída, e senti cada morte como uma ruptura, como se parte de mim se rasgasse. Não haverá ninguém como nós quando nos formos, mas na verdade não há ninguém que seja como outro alguém, nunca houve. Quando as pessoas morrem, são insubstituíveis. Deixam buracos que não podem ser preenchidos, pois é o destino – o destino genético e neural – de cada ser humano ser um indivíduo único, encontrar seu próprio caminho, viver sua própria vida, e morrer sua própria morte.

Não posso fingir que não tenho medo. Mas meu sentimento predominante é a gratidão. Amei e fui amado; ofereci muito, e dei algo em troca; li, viajei, pensei e escrevi. Comuniquei-me com o mundo com a comunicação especial dos escritores e leitores.

Acima de tudo, tenho sido um ser senciente, um animal pensante, nesse belo planeta, e isso por si só foi um enorme privilégio, e uma aventura.”

Por Oliver Sacks, texto escrito pouco tempo antes da sua morte, ao descobrir um câncer terminal.

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Nem mesmo o nosso Sol escapará do fim. Felizmente, a fusão nuclear ainda o sustenterá por 100 milhões de anos. (foto de arquivo pessoal)

Lidar com a morte é o maior mistério da humanidade. Mais do que um mistério, a morte propriamente dita é um absurdo. Vivemos em primeira pessoa, todas as vivências, estímulos e ideias são experimentadas pelo foco do “eu”. Chega a ser inconcebível a percepção do morrer como “deixar de existir”, uma vez que se faz parte deste universo.

A cultura ocidental também se encarregou de aliar conceitos como fracasso, punição e perda à morte. Por isso, nos afastamos do morrer, as despedidas entre pessoas queridas tendem a ser mais tímidas, os hospitais se encarregam de isolar os doentes da sociedade. O médico que disser que lidar com a morte é fácil, ou que não se sensibiliza com a perda de um paciente, deve repensar o seu papel na profissão.

A verdade é que nosso inconsciente é atemporal. O ser humano tende a se enxergar como um ser permanente. E embora seja óbvio que todos vamos morrer, tiramos um pouco essa impermanência das nossas mentes, até mesmo para tornar a realidade mais suportável.

Às vezes, é preciso se contentar com um “não sei”. As incertezas nos movem, são incompatíveis com comodismos e falsas seguranças. Aproveitar a nossa breve existência neste planeta parece ser o mais prudente a se fazer, diante da imensidão de mistérios à nossa volta.

“Eu adoraria acreditar que quando eu morrer, eu vou viver outra vez. Que alguma parte pensante, sensível e memorável de mim continuará. Mas por mais que eu queira acreditar nisso, e apesar de antigas tradições culturais mundiais falarem sobre vida após a morte, eu não sei de nada que possa sugerir que isso é mais do que simplesmente pensamento positivo. O mundo é tão primoroso, com tanto amor e profundidade moral, que não há razão para nos enganarmos com histórias bonitas para as quais existem poucas evidências boas. Parece muito melhor para mim, em nossa vulnerabilidade olhar a morte nos olhos. E ser grato todos os dia pela breve, mas magnífica oportunidade que a vida nos dá.” Carl Sagan

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Sobre formar (e envelhecer)

“Você tem que encontrar o que você gosta. E isso é verdade tanto para o seu trabalho quanto para seus companheiros. Seu trabalho vai ocupar uma grande parte da sua vida, e a única maneira de estar verdadeiramente satisfeito é fazendo aquilo que você acredita ser um ótimo trabalho. E a única maneira de fazer um ótimo trabalho é fazendo o que você ama fazer. Se você ainda não encontrou, continue procurando. Não se contente. Assim como com as coisas do coração, você saberá quando encontrar. E, como qualquer ótimo relacionamento, fica melhor e melhor com o passar dos anos. Então continue procurando e você vai encontrar. Não se contente.” Steve Jobs

Conforme o famoso discurso de Jobs, ainda estou à procura do meu trabalho. E isso não quer dizer, necessariamente, que não me encontrei na medicina. Em certo sentido, graduar-se é envelhecer. Apenas com o passar dos anos percebemos as mudanças. Tal qual o paradoxo mitológico do navio de Teseu, que questiona se a embarcação usada no início da sua viagem é a mesma no final da viagem, considerando as mudanças e trocas de peças ao longo do percurso. Para vivenciar mudanças, é preciso envelhecer.

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Viver a realidade da medicina foi uma experiência diferente de qualquer expectativa imaginada. A graduação me deu algumas lições ao longo de seis anos. Os sonhos mudaram, a maneira de se perceber a vida mudou, os planos se rearranjaram, foi preciso se adaptar. Em resumo, nenhuma teoria é capaz de superar o poder da experiência.

Ao final do curso, vejo-me com um ciclo completo. Conheci pessoas e vivenciei situações que levarei pelo resto da minha vida. Agradeço a todos que compartilharam os bons momentos e também me ajudaram nas horas de frustração, aos verdadeiros amigos, à minha família, principalmente aos meus tios.

Termino a graduação ainda repleto de questionamentos, fascinado pelo conhecimento, em sua concepção mais humana. As consequências deste curso a longo prazo para minha vida eu ainda desconheço, mas saio da medicina mais forte e pelo mesmo propósito ideológico com o qual entrei: tenho muitas vidas para viver, tenho muito o que aprender.

Minha medicina, minha Turma 57

O que guardarei do curso de medicina não será uma aula, não será um professor, nem os estágios, nem mesmo a universidade. Minha principal lembrança, que levarei comigo pelo resto da vida, será a minha turma, mais conhecida como a Turma 57 de Medicina da Universidade Estadual de Montes Claros.

Tenho uma clareza cristalina da manhã em que conheci os meus colegas, no já distante ano de 2010. Desde então, tenho memórias de uma série de situações divertidas; das tutorias intermináveis; das horas na fila do xerox; das brigas (que vou terminar o curso sem entender a maioria delas); das madrugadas de estudo (com postagens nos grupos da turma em redes sociais); das festas boas (que geralmente eram nos fins de período); das festas ruins (que na metade dos períodos tinham orçamento menor); das nossas insatisfações com o sistema público (incluindo falta de estrutura, “bolos” de professores e atividades aleatórias); dos momentos de alívio e satisfação (fins de plantão, fins de módulos, viradas de internato).

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Minha foto preferida da Turma 57. Existe uma energia diferente nessa foto, que foi tirada no dia 18 de junho de 2013, na manhã da nossa última sessão tutorial, nas escadas do prédio de ciências biológicas e da saúde, o CCBS.

Minha conexão com os colegas não aconteceu por conta de semelhanças. Pelo contrário, tratam-se de pessoas completamente diferentes, com personalidades diversas e com motivações diferentes. Acho que o tempo que passamos juntos, a integralidade do curso e as experiências de sofrimento compartilhado ajudaram um pouco nessa conexão. Meu envolvimento com a Turma 57 não se compara com nenhuma outra experiência estudantil, desde os tempos mais remotos de escola.

Nos últimos 100 dias para a formatura, às vezes me pego pensando se poderíamos ter aproveitado mais uns aos outros. Por outro lado, tenho a impressão de que fizemos o que poderia ser feito, dentro do tempo que tivemos. Quando dou uma olhada nas fotos antigas, percebo o quanto todos mudaram, somos outras versões de nós mesmos. E por fim, acho que repetiria tudo exatamente como aconteceu, caso voltasse no tempo por seis anos.

A interação entre os colegas, que já começou a diluir durante os internatos, fica naturalmente mais distante com o tempo. Cada um toma o seu rumo, como seguem as fases da vida. Mas as memórias ficam. Aliás, memórias são tudo o que temos.

Darwin e os grupos neuronais

Explicar a origem e os padrões de funcionamento da mente é um desafio, uma promessa que a medicina se dispõe a cumprir, englobando ramos da fisiologia, neurologia e psiquiatria. Uma teoria que se propõe a unificar tal conhecimento é o Darwinismo Neural, também chamado de Teoria da Seleção de Grupos Neuronais.

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Para Darwin, a evolução das espécies poderia ser vista como uma grande árvore da vida, repleta de ramificações, troncos e galhos. Para Edelman, essa analogia também pode ser válida para mente humana. (foto de arquivo pessoal)

O evolucionismo é o principal tronco das ciências biológicas, que tem como base a seleção natural, desenvolvida por Charles Darwin. O Darwinismo Neural, por sua vez, propõe conceitos semelhantes para a mente humana, de forma que o sistema nervoso se baseia em sistemas seletivos, guiados por três princípios: seleção de desenvolvimento, seleção experiencial e sinalização reentrante.

De forma simplificada, a seleção de desenvolvimento corresponde aos fatores genéticos e celulares que moldam a constituição do cérebro, desde os primeiros fenômenos embriológicos. A seleção experiencial representa a plasticidade das sinapses, de maneira que grupos ou “populações” sinápticas teriam sua bioquímica reforçada, enquanto outras seriam enfraquecidas, conforme as experiências ao longo da vida. Por fim, a sinalização reentrante é a interação desses grupos neuronais, formando “mapas” paralelos e interconectados, selecionados de forma complexa, moldados a partir da interação com o ambiente.

O Darwinismo Neural foi proposto pelo médico americano Gerald Edelman, no final dos anos 1970. Do ponto de vista prático, é a base para inúmeros estudos de cognição artificial, como projetos de modelagem neural sintética, que são modelos de sistema nervoso através de computadores e robôs. Uma série de Dispositivos Baseados no Cérebro (BBD, do inglês Brain-Based Devices) já foram projetados por Edelman e sua equipe, a fim de se estudar as funções psíquicas superiores por meio de simulação.

Longe de ser um consenso, a Teoria da Seleção de Grupos Neuronais ainda é controversa, mesmo entre a comunidade científica. Alguns até questionam a analogia usada com a teoria da evolução, com a justificativa que grupos neuronais não são unidades evolutivas, pois os conceitos de Darwin não podem ser aplicados nesse contexto. Ainda assim, Edelman propõe um olhar curioso e instigante sobre a mente humana. Afinal, a mente é o nosso maior mistério. Grandes mistérios não possuem soluções simples.

Adeus, professor Sacks

“Ainda que seja meu trabalho como neurologista diagnosticar a doença e pensar no tratamento da doença, eu sempre quis tratar a pessoa tanto quanto a doença e fico muito feliz que o meu médico pense da mesma forma. Eu não sou apenas um trabalho para ele. Eu sou uma pessoa reagindo a uma situação. Dessa forma, eu me coloco entre a visão biológica e humanista”. Oliver Sacks

Há menos de duas semanas, o mundo deu adeus ao grande Oliver Sacks, neurologista, escritor e amante incondicional da ciência. Sacks aproveitou sua passagem pelo planeta com intensidade, sua escrita agradável e o envolvimento com os pacientes lhe rendeu uma popularidade rara entre os autores de divulgação científica.

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Recomendo a leitura da autobiografia “Sempre em Movimento”, publicada no Brasil pela Companhia das Letras.

Muito mais que um médico, era um idealista, químico amador, motociclista, apreciador de biologia marinha e, sobretudo, um contador de histórias. Suas narrativas se estruturavam na vida dos seus pacientes como um todo, repletas de humanismo. Em 1990, foi interpretado por Robin Williams na adaptação cinematográfica de uma das suas obras, “Tempo de Despertar”. Apesar de não quebrar paradigmas ou apresentar grandes descobertas científicas, como Richard Dawkins ou Stephen Hawking, Oliver Sacks possui uma obra diferenciada, capaz de contagiar leitores médicos, cientistas e leigos.

Pessoalmente, Sacks foi uma das inspirações ao criar o blog “Neoplasia Benigna”. Inclusive, de forma honesta e simples, ele resume as incertezas de um quase recém-formado, como eu:

“Eu estava entusiasmado – e maravilhado – em me saber médico, em ter finalmente conseguido me formar (nunca pensei que conseguiria, e mesmo agora às vezes sonho que ainda estou empacado num perpétuo período estudantil). Estava entusiasmado, mas também apavorado. Achava que ia fazer tudo errado, cair no rídiculo, ser considerado um incompetente incorrígivel e até perigoso.”

Sentirei falta das suas palavras, Sacks. Inclusive dos seus tweets durante as madrugadas: https://twitter.com/OliverSacks?lang=pt

Desperte em paz para outra dimensão.

Colonização espacial e limitações humanas

“Não havia nenhuma evidência de que a inteligência da raça humana melhorou, mas pela primeira vez foi dada a chance para que todos usassem de forma ilimitada a capacidade cerebral que tinham. (…) A humanidade havia espalhado suas sondas robóticas por um volume de cem anos-luz de diâmetro. Civilizações muito mais antigas haviam feito a mesma coisa.” Arthur Clarke, em O Fim da Infância.

Até 2050, seremos 9 bilhões de habitantes no planeta. O uso de recursos energéticos, a produção de alimentos e o fornecimento de água serão desafios para a humanidade nos próximos séculos. A civilização, da forma como a conhecemos, não será duradoura, pois criamos um modelo de produção insustentável a longo prazo. Uma das soluções é exatamente um tema que vai além da ficção científica: a colonização espacial.

Uma série de cientistas defende a colonização espacial como alternativa para o futuro da humanidade. O problema, na verdade, não é apenas uma questão de engenharia. Definir um planeta habitável e projetar missões não tripuladas seriam investimentos longos, mas plausíveis. O principal problema seria o próprio Homo sapiens, sua fisiologia não está adaptada para viagens longas no espaço, muito menos para habitar outros corpos celestes.

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A lua e suas crateras. (arquivo pessoal)

No espaço, a distribuição dos fluidos corporais se altera com a ausência de gravidade. Ocorre uma progressiva perda de massa muscular e óssea, aumentando também os riscos de problemas renais. A medula óssea diminui a produção de células sanguíneas, com o tempo surgem alterações sensoriais periféricas e desorientação. Além disso, a falta de atmosfera e campo magnético contribuem para o aumento da radiação solar e, consequentemente, maiores efeitos carcinogênicos.

O homem é um dos resultados da evolução das espécies, moldada ao longo de bilhões de anos pela seleção natural, contextualizada nas condições ambientais da Terra. Para criar um suporte de vida em outro planeta, existem basicamente duas opções: alterar radicalmente o ambiente para torná-lo mais adequado à vida terrestre (processo conhecido como Terraformação); ou então, alterar os organismos vivos para que se adaptem às condições espaciais, por meio da biotecnologia. Há ainda uma terceira via, representada pelos Cilindros de O’Neill, que consistem em ecossistemas fechados que simulam as condições de vida no planeta azul. Todas as opções exigiriam custos altos, investimentos longos e estão muito além da corrida espacial do século XX.

Talvez, para que a colonização do espaço ocorra, a humanidade tenha que deixar de ser originalmente humana. Talvez a nossa única saída seja evoluir. Uma vez fora da Terra, naturalmente deixaremos de ser Homo sapiens.

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Halo solar. (arquivo pessoal)

“Nossa população e nosso uso dos recursos finitos do planeta Terra estão crescendo exponencialmente, junto com nossa capacidade técnica para mudar o meio-ambiente, para o bem ou para o mal. Mas o nosso código genético ainda carrega os instintos egoístas e agressivos que eram vantajosos para a sobrevivência da espécie no passado. Vai ser difícil evitar um desastre nos próximos cem anos. Nossa única chance de sobrevivência a longo prazo não é permanecer à espreita no planeta, mas nos espalhar pelo espaço. ” Stephen Hawking

Biotech e ética hacker

“Ciência da computação está tão relacionada aos computadores quanto a Astronomia aos telescópios, Biologia aos microscópios, ou Química aos tubos de ensaio. A Ciência não estuda ferramentas. Ela estuda como nós as utilizamos, e o que descobrimos com elas.” Edsger Dijkstra, cientista da computação holandês.

Quando se pensa em ciência do século XXI, grandes empresas, centros tecnológicos e universidades são referências de produção científica. No entanto, novas correntes de experimentações biológicas tem ganhado a atenção do mundo, uma espécie de mistura de metodologia científica e ética hacker: o biohacking.

A ética hacker deriva de princípios do lema “do it yourself” (faça você mesmo), sendo representada pelo livre acesso a computadores, assim como abertura de conteúdo, compartilhamento e descentralização de poder. No caso do biohacking, o ato de hacker elementos biológicos segue a mesma lógica, como forjar um colírio para visão noturna, alterar genes de animais para que brilhem no escuro, cultivar bactérias que sintetizam antidepressivos em iogurtes ou sintetizar proteínas na garagem.

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“Não temo os computadores, temo a ausência deles.” Isaac Asimov, escritor de ficção científica. (fotos de arquivo pessoal)

Longe de grandes laboratórios e grandes financiamentos, os biohackers possuem ambientes de trabalho como a própria garagem ou um quarto de apartamento. Em sua maioria, são graduados com experiência, que possuem a diversão ou a curiosidade como motivação. Não é raro encontrar compatibilidade dos biohackers com alguns ideais da ficção científica, como o transhumanismo e o biopunk. O transhumanismo acredita na transformação do corpo humano  em estruturas superiores através da tecnologia, já o biopunk defende o livre acesso à informação biológica, como instrumento de democracia e liberdade.

Apesar de ser julgada como ameaça, a ética hacker foi produto da contracultura do século XX, dando muitos frutos para a humanidade. Graças aos hackers, a informática se popularizou com os computadores pessoais, que, por sua vez, impulsionaram a internet, websites, plataformas de blog, redes sociais e outros avanços de hardware e software (e claro, este humilde blog também é resultado de tudo isso).

Manipular a biologia é muito complexo. Sempre haverá alguém buscando desenvolver ou descobrir alguma novidade, seja um cientista ou um amador. Na verdade, é bem provável que o biohacking tenha precedido o hacking propriamente dito, com alguns séculos de vantagem. Talvez Gregor Mendel ou Charles Darwin sejam os pioneiros do assunto, pois também atuaram como biólogos independentes, verdadeiros “biólogos de garagem”.

 

O Spore da Nintendo

Minha querida, Gaia! Por favor, me escute. Daqui a 1 bilhão de anos, você terá uma criança chamada Vida. Essa criança deverá suportar uma difícil jornada. Você pode pensar que é muito severo, mas isso é necessário. A jornada é um teste da natureza: A sobrevivência do mas apto.” Fala do Sol, na introdução de “E.V.O.: Search for Eden”.

Compreender como a vida na Terra se moldou ao longo de bilhões de anos é um desafio para ciência, assim como um exercício de imaginação. E imaginação é um recurso poderoso. Em 1992, foi lançado no Japão o game “E.V.O.: Search for Eden”, para Super Nintendo, um jogo com uma proposta diferente e inteligente: permitir que o jogador viajasse pela evolução das espécies, ao longo da história do planeta.

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O gameplay é simples: com a barra de HP para sobrevivência e EVO points para evoluir, o jogador viaja por mais de 60 cenários inspirados na história do planeta.

Com gráficos agradáveis e jogabilidade simples, a lógica do game é controlar seres, sobreviver e evoluir, dando origem a novas espécies, com liberdade para determinar as características e modificar seu personagem. É possível modificar peixes, anfíbios, répteis e mamíferos. Com o formato de plataforma 2D, “E.V.O.” possui elementos de RPG e permite que o jogador molde o desenvolvimento da história, sendo possível vários caminhos diferentes.Dividido em cinco partes, o jogo possui um teor científico, sem deixar de lado conceitos fantásticos.

Na época em que foi lançado, o jogo não foi um sucesso de vendas, apesar da originalidade. Altamente recomendado para quem gosta de aprender um pouco sobre a teoria da evolução se divertindo, “E.V.O.” foi pioneiro na fórmula que posteriormente seria revisitada pelo aclamado “Spore”. Essencial.

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As grandes extinções também são tema do game, como o asteroide que dizimou os dinossauros há 65 milhões de anos.

Sobre o hiato do blog, sobre o fim da graduação

Há três meses, o Neoplasia segue sem novos posts. Sinal de fim do blog? Ainda não, houve uma pausa necessária, por conta do longo internato de clínica médica. O fim do blog virá, talvez em um prazo um pouco mais longo. De agora em diante, pretendo retomar a regularidade de postagens, na medida do possível.

O fim do curso sempre parece uma miragem distante. Após tantos anos de faculdade, a ideia do final chega de forma sorrateira. A verdade é que nunca se está plenamente preparado para o que virá após a graduação. No caso da maioria dos formandos, a residência médica ou um primeiro emprego como clínico geral são os principais rumos. São decisões complexas, que envolvem muitas variáveis (afinal, as carreiras na medicina seguem rotinas completamente diferentes).

O final da graduação talvez seja uma maneira de se reinventar, uma nova forma de enxergar o mundo de possibilidades. E então, no último ano de faculdade, segue o bombardeio natural da pergunta: o que você fará depois do curso?

Definir qual será o próximo passo é difícil. Talvez mais difícil do que na época do vestibular. No meu caso, não está descartada nenhuma possibilidade. É preciso sempre ter mais de uma via. Às vezes, o plano B se torna o plano A. Possibilidades na medicina. E também, possibilidades fora da medicina.

HIV, o vírus do século XX

Vírus são seres extremamente microscópicos e misteriosos. Até hoje a ciência tem dificuldade em defini-los como seres vivos, porque não possuem metabolismo próprio, não são dotados de um organismo, tampouco são capazes de crescer e se dividir. São basicamente informação genética, na forma de DNA ou RNA, protegida por um envoltório de moléculas, como um envelope. A simplicidade dos vírus torna-os parasitas obrigatórios de células, caso contrário são inertes, não é possível desenvolvê-los em meios de cultura com nutrientes necessários para a vida, como ocorre com bactérias e fungos. Tal simplicidade torna-os agentes capazes de desencadear processos patológicos complexos, dar origem a pandemias e, por vezes, mudar o curso do comportamento e da história da humanidade. E foi exatamente o que um vírus em especial conseguiu fazer ao longo do século XX: o HIV.

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“O HIV e suas interrogações” (arquivo pessoal)

A história do HIV, sigla para o Vírus da Imunodeficiência Humana, responsável pela AIDS, se confunde com a história do século XX. Sua origem foi no centro-oeste da África, por volta de 1910, como resultado de mutações do SIV, Vírus da Imunodeficiência Símia, que ultrapassou espécies de macacos selvagens até chegar ao homem, mutações provocadas por transmissões sucessivas. Ao que parece, os primeiros infectados foram pessoas que desenvolviam algum tipo de atividade com animais selvagens. A colonização europeia na África foi um fator para a disseminação do vírus, assim como a Segunda Guerra Mundial, que difundiu práticas médicas inseguras pelo continente africano, além dos movimentos de descolonização na segunda metade do século.

No entanto, o vírus permaneceria clinicamente desconhecido até 1981, quando a o quadro clínico da AIDS, sigla para Síndrome da Imunodeficiência Adquirida, começou a ser desvendado. A questão básica da doença seria que, ao infectar os linfócitos T CD4, o HIV compromete e debilita o sistema imune, dando substrato para outras infecções e tumores incomuns, presentes somente em estágios de imunodepressão.

O HIV reforçou a hipótese de que as doenças não são eventos isolados, são fenômenos complexos que se interligam. A lista de microrganismos oportunistas recorrentes em portadores da AIDS é longa, entre eles o Mycobacterium turbeculosis, Pneumocystis jirovenci, Cryptococcus neoformans, Candida albicans, Histoplasma capsulatum, Toxoplasma gondii, Cryptosporidium sp., Isospora belli, Microsporidia. São agentes infecciosos tão interligados ao HIV que chegam a definir clinicamente a própria imunodeficiência. Além disso, o próprio contágio pelo HIV é facilitado por doenças sexualmente transmissíveis que provocam úlceras genitais, por se tratarem de lesões que aumentam as probabilidades de sangramento no ato sexual.

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“Clouds” (arquivo pessoal)

As mudanças culturais e sociais provocadas pelo vírus são tão complexas como a própria doença. O fato de ser transmitida pelo contato sexual, sangue e derivados, tornou a AIDS disseminada em grupos com comportamentos de risco, sendo conhecida nos anos 1980 como “a doença dos 4 H’s“: homossexuais, usuários de heroína, haitianos e hemofílicos. Os preconceitos em decorrência da doença são evidentes na busca por emprego, nas relações familiares e nas amizades dos portadores do HIV. Racismo, discriminação e ameaças aos direitos individuais de certa forma ajudaram a manter a doença latente, à medida que muitos portadores não realizam tratamento regular.

No século XXI, um desafio em relação à AIDS encontra-se em campanhas de prevenção que tenham efeitos nas novas gerações. Jovens que não vivenciaram os anos 1980, nem mesmo os primórdios do tratamento contra o HIV, apresentam uma tendência a desprezar a doença, já que as terapias medicamentosas recentes melhoraram e modificaram o curso natural da AIDS. No entanto, a perspectiva de cura ainda está distante, pois o vírus é altamente mutagênico e é capaz de driblar as células de defesa do organismo.

Chegar até a cura é tão difícil quanto entender a origem dos vírus. Há teorias que defendem o conceito de evolução retrógrada, em que o vírus seria resultado de um parasita mais complexo que perdeu grande parte da sua carga genética ao longo do tempo, transformando-se em partícula viral. Outra teoria, menos aceita, defende que os vírus são a base da evolução, o primeiro estágio evolutivo dos genes, formas primordiais de vida. E outras correntes afirmam que os vírus foram originados a partir de material genético das próprias células que parasitam, como resultado de “expurgos” que passaram a ter autonomia. Essa última é a teoria da origem celular dos vírus, atualmente mais aceita, pelo fato de que os vírus tem semelhanças genéticas muito grandes com as células hospedeiras. Apesar dos passos, ainda há muitas perguntas sem resposta, há muito que se descobrir para chegar até a cura…

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O Laço Vermelho, símbolo internacional de solidariedade aos portadores de HIV. (fonte: Wikimedia)

Dica: Para terminar, recomendo o filme “Clube de Compras Dallas” (2013) para os que se interessam pelo tema. O filme, baseado em fatos reais, é sobre um eletricista texano que recebe diagnóstico de AIDS nos anos 1980. O filme retrata os primeiros anos da pandemia, além do tráfico de medicamentos alternativos entre os portadores. Essencial!

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